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A pseudo-arte anda estragando a web (outra vez)

Poe BellentaniPoe Bellentani

Práticas ruins voltam a atacar a Internet: designs com navegação complexa, pesados ou lentos, difíceis de serem utilizados em dispositivos móveis e inacessíveis para pessoas com deficiência visual ou motora. Tudo isso com uma pitada de modismos, buzzwords e falta de noção da real função do que está sendo feito.

Era 1999 e eu estava dando os meus primeiros passos em design e código para Internet como profissional (desde 1996 já mexia com código HTML e me divertia fazendo sites no Geocities). Nessa época eu já era um viciado em estrutura de documentos web, organizando tudo como se fossem documentos de Word. Foi um ano bom, onde não havia muito a ser feito com relação a inovações - as pessoas acessavam a Internet de uma maneira bem modesta e não havia essa torrente de tecnologias, metodologias e linguagens. Tudo era infinitamente mais simples.

Em 2000 a coisa mudou um bocado. Foi um boom! A grande bolha estava lá e aquela correria assustadora das “ponto com”. O mundo se agitava com o surgimento e queda de gigantes. O Macromedia Shockwave se tranformava no Macromedia Flash e os designs feitos em tabelas dominavam a Internet - 9 em cada 10 sites eram feitos voltados as metáforas absurdas nascidas na cabeça de criativos, ignorando a função e o cliente final (frases do tipo “quero que o site pareça a recepção da minha agência, com caricatura de todos os 350 funcionários, lembrando 'Os Simpsons', é claro” eram bem comuns).

Os sites eram pesados, lentos, nada amigáveis e não respeitavam o usuário final. Era cada um por si e a criatividade galopante contra todos.

Ok, foram anos ruins, mas era o nascimento ainda de um novo paradigma e fazer errado é parte do processo de aprendizado. Todo mundo errava e todo mundo aprendia.

No andar da carruagem e o passar dos anos as coisas foram melhorando, passou-se a falar em usabilidade, acessibilidade e algumas coisinhas lindas surgiram: o conceito de webstandards, inicialmente chamado pela galera de “sites em tableless”, ganhou o gosto geral.

Foi uma regressão bem vinda ao significado do que estava sendo feito. Aos poucos o Flash se tornou o grande vilão (obrigado, Steve Jobs) e o Google passou a ditar o que era legal ser feito - afinal, todo mundo queria estar listado na primeira página do buscador.

Outras coisas se tornaram comuns no cotidiano dos designers e profissionais de web, como priorizar a usabilidade e, por consequência, a acessibilidade.

Pra quem não sabe, usabilidade quer dizer fazer algo fácil de ser utilizado pelas pessoas sem que elas tenham problemas em entender o que deve ser feito (está bem, não é só isso, para ler mais sobre é só ir ver em usabilidade - ou aqui pra quem gosta do pessoal do Tableless). Já acessibilidade é se preocupar em permitir que pessoas com deficiências visuais, motoras. intelectuais ou tecnológicas (sim, computador ruim impede acesso também) consigam acessar o conteúdo ou realizar tarefas da mesma maneira que as pessoas que não os possuam fariam.

Lindo, né? Com isso em mente e com designs centrados no usuário, popularização da Arquitetura da Informação e do User Experience Design (ou Experiência do Usuário), era pra tudo ficar muito mais bonito e a Internet ser o melhor lugar para todas as pessoas do mundo.

Mas não foi bem assim. Nos últimos 5 anos, com a explosão do suporte ao CSS 3, HTML 5, a conexão de banda larga de maior velocidade e advento de dispositivos com maior capacidade de processamento (o que permitiu um uso cada vez maior de Javascript) iniciamos um processo de retrocesso de pensamento.

Era para o design ser centrado no usuário, mas aquela mesma explosão cega de criatividade galopante tomou de assalto a Internet mais uma vez. Talvez não seja só culpa dos fatores do parágrafo anterior, mas também da explosão de novos paradigmas navegacionais ditados pelos smartphones e tablets - trazendo um monte de novidades e um comportamento “app centered” para a web.

O Flash foi embora, mas animações desnecessárias, sites pesados e cheios de complexas reviravoltas navegacionais começaram a se popularizar. O menu-dentro-de-menu-dentro-de-menu voltou a ser presente, os objetos de navegação redundantes ou desnecessários, as imagens de tamanhos absurdamente grandes (e supérfluas), redução de área visível para o usuário, o scroll dentro de scroll, a divisão de conteúdo por frames (o meu terror particular, assumo) e a perda total do foco na função passaram a ser prática comum novamente.

Jacob Nielsen deve pirar quando dá uma navegadinha básica por aí, principalmente em sites feitos por grandes agências de publicidade e equipes criativas - pois aí é onde residem os perigos, gente querendo inovar em uma área que não precisa de tanta inovação no que diz respeito a paradigma navegacional. É tentar encaixar a metáfora desnecessária de novo no cotidiano das pessoas ao invés de aproveitar para simplificar.

Não assumo aqui que devamos parar de testar novas coisas ou que devamos fazer apenas trabalho “feijão com arroz”, mas que priorizemos a função essencial do design, que é resolver problemas.

Até onde eu me lembro, a função do design é sugerir soluções a problemas existentes e tornar mais fácil a vida das pessoas. Isso vale desde o design de cadeiras e carros até o design de livros e sites. Seja tangível ou intangível, o que um designer deve propor é isso: uma abordagem que venha a transformar positivamente a vida de quem interage com o objeto, seja coisa ou ideia. Se faz pensar, refletir ou qualquer outra coisa deixa de ser design e vira arte.

E eis que cheguei no ponto polêmico: onde começa o design e começa a arte para a web? Talvez em hotsites de campanhas, blogs para designers e outras peças conceituais o “viajar na maionese” não seja ruim - e talvez seja nesses lugares onde a criatividade mais aperta o calo e se faz necessária. Trabalhar com conceitos é sempre legal e permite que produzamos ou experimentemos sem preocupação com a função.

Porém, a grande massa de conteúdo online está em sites institucionais e informacionais. São sites de empresas, serviços e ferramentas online. São lugares onde as pessoas nutrem espectativas diferenciadas - seja um site ou um aplicativo, a função deve ser mais valorizada que a estética (um exemplo positivo de design nesse sentido é o Google e todos os seus produtos, que criou o conceito de “Material Design”). Quando fazemos algo “legal” não quer dizer que aquilo realmente é fácil ou compreensivo para o usuário.

Vamos usar um exemplo prático: já pensaram em menus que deslizam o passar ou clicar do mouse? São bem legais quando animados e cheio dos efeitos, abrindo subníveis a cada deslize ou clique, não é mesmo? Pessoalmente me vejo dentro de um filme de Sci-fi e já mentalizo a interface do sistema de Minority Report. As pessoas piram quando enxergam isso - e eu também. Agora, vamos imaginar que você entra naquele site todos os dias e tenha que fazer esse joguinho chato de “ache o clique” toda vez. Depois de algumas dezenas de vezes você irá querer matar o menu ou ficará extremamente de saco cheio de ser obrigado a fazer esses movimentos desnecessários toda vez.

Ok, mas esse não é o grande problema, afinal, não é todo mundo que é abituê de um site (sou de pelo menos 10, mas esse sou eu, um cara velho que ainda usa feed RSS). Então imaginemos alguém que, por algum motivo qualquer (seja problema motor, mouse ruim ou apenas não ter a habilidade necessária) arraste sem querer o mouse para fora do menu. Pronto, ele se fecha e o processo é necessário ser iniciado do zero.

Some os dois problemas, o de “vezes que se faz a ação” ao da “dificultade em executá-la”, e você tem algo bonito que não serve pra nada a não ser irritar o usuário do seu site, gerando problemas para ele realizar a tarefa mais simples possível esperada em um site: a navegação.

Devemos fazer sempre uma auto-crítica ao que fazemos, pensar nas pessoas que utilizam o que criamos, utilizar a heurística como base e também se fixar no que funciona como caminho certo. Inovar e testar novos caminhos é essencial, mas devemos fazer isso com parcimônia e cautela, sempre testando e buscando tirar nossas dúvidas com casos reais.

Não é para matar a criatividade, mas para colocarmos ela a nosso favor e não contra as pessoas que utilizam as nossas criações.

Para o bem da Internet e de todas as coisas, sejam mais designers e menos artistas. A arte tem o seu lugar próprio - respeitem os limites e garanto que minha mãe nunca mais vai me perguntar onde se fecha o menu do UOL.

P.S.: Essa não é a verdade absoluta - longe de mim ser presunçoso ao ponto de me impor como referência. O texto é mais um desabafo para se fazer uma reflexão sobre o que acontece hoje com o design voltado para Internet e aplicativos mobile. A ideia era apontar, com essas afirmações semi-dogmáticas, problemas sérios que podem afetar a vida das pessoas que usam os sites e aplicativos que fazemos. Afinal, sites são produzidos para pessoas usarem e não para ganhar prêmios por criatividade (bom, pelo menos os meus são assim).

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